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História de crianças sobreviventes da ditadura argentina vira livro comovente

História de crianças sobreviventes da ditadura argentina vira livro comovente

No livro ‘Malmö, uma história argentina’, Mónica Szurmuk, professora da Universidade de San Martín, de Buenos Aires, conta detalhes da vida de três irmãos, que hoje moram na Suécia

O casal Vicenta Orrego e Julio Ramírez deixou o Paraguai durante a ditadura de Alfredo Stroessner no início dos anos 1970. Eles se mudaram para a Argentina, onde, poucos anos depois, conheceram em carne própria os horrores da ditadura argentina.

Antes do golpe militar de 1976, Vicenta e Julio tiveram três filhos: Carlos, Maria e Mariano. A construção de uma vida sonhada na Argentina começou a desabar quando Julio foi preso, no fim de 1974. Faltavam cerca de 15 meses para o golpe, mas o país já vivia os atos ilegais da chamada Tríplice A (Aliança Anticomunista Argentina), no governo de Isabelita Perón. “Foi ali que começou nosso caminho para o inferno”, disse María nas conversas, em 2024. As duas se encontraram em Copenhague, na Dinamarca, e seguiram juntas à casa de María, em Malmö, na Suécia.

Mónica Szurmuk, autora de 'Malmö. Una historia argentina' (Foto: gentileza).

Nos fragmentos da obra ‘Malmö, una historia argentina’ (Malmö, uma história argentina, em tradução livre) tão bem escritos por Mónica Szurmuk, Vicenta recebe apoio de um sacerdote, após a prisão do marido. O sacerdote, porém, acaba assassinado. Ela também será morta pouco tempo depois, em 1977, diante dos filhos. Crianças pequenas, María, então com 4 anos, Carlos, com 5 anos, e Mariano, com dois anos, foram levados para uma espécie de orfanato da época, chamado ‘Hogar Casa de Belén’, definido por Szurmuk como “um verdadeiro centro clandestino de detenção”.

“Como se sente uma criança tão pequena quando a separam da mãe?”, indaga a escritora nas páginas de Malmö, editado por Sudamericana. Os irmãos Ramírez, tão pequenos, tão indefesos, tiveram seus nomes, suas identidades mudadas, assim como outras crianças levadas à ‘Casa de Belén’. Ali, o maltrato era frequente, incluindo torturas e violações, relata a pesquisadora. “Quantos (entre os adultos) ali sabiam o que acontecia? Quantos sabiam que havia filhos de desaparecidos políticos no lugar?”, questiona Szurmuk. A trama envolve os outros horrores que ocorreram na ditadura argentina com crianças, sem os pais e tratados sem amor e sem piedade.

Da prisão, o pai, Julio Ramírez, implorava por seus rebentos. Anos mais tarde, como tantos outros argentinos perseguidos pelos ditadores, ele se mudou para a Suécia, com apoio do braço de refugiados das Nações Unidas. Voltou para buscar os filhos pequenos graças a uma rede de solidariedade e apoio. A Suécia passou a ser o terceiro país de Julio Ramírez, mas já sem Vicenta Orrego. As crianças aprenderam sueco, cresceram. “A literatura me salvou”, contou María, que é pintora, à autora do livro que merece ser lido. O caso dos irmãos Ramírez foi parar nos tribunais, mas as lembranças das dores em carne própria estão em Malmö.

Os Ramírez voltaram algumas vezes à capital argentina. E María foi uma espécie de mensageira da esperança.

O trabalho de pesquisa, com entrevistas e expedientes da Justiça, o cuidado com as palavras e com a história a ser contada são características da autora, como demonstrou em outra de suas obras, que é a biografia do jornalista e escritor Alberto Gerchunoff (1883-1950). Seus títulos incluem o ‘Diccionario de estudios culturales latinoamericanos’ e ‘Narrativas de viaje de mujeres en Argentina’. Malmö tem também alguns dos caminhos da própria autora.

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